🤔 Para Refletir :
"Água mole em pedra dura tanto bate até que fura... Bem, exceto se você alterar as configurações de resistência elemental do seu projeto!"
- Moge

Eu, Jogos e Cotidiano

misterdovah Masculino

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05 de Maio de 2020
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RPG Maker MZ
Inspirado pelo texto do Rafael Braga no site da Controles Voadores, decidi escrever sobre o tema: relações pessoais com jogos.
Eu mexi em um controle de Atari antes de saber falar. Dos anos 1980 pra cá, eu cresci tendo como principal parceira as personagens dos meus jogos favoritos. Um dia, tomei coragem de resgatar uma demanda da minha criança interior e comecei a aventurar pelo gamedev.
Dentre as engines, escolhi o meu amado Rpg Maker, em que muito alegremente estudo possibilidades lúdicas para, quem sabe, lançar algo comercial um dia. E então vejo o texto mencionado no início.
Deixo um pouco o Dovah de lado e sigo pro meu dia a dia. Sou docente. Também bacharel em Direito. E faz mais de uma década que não lia um livro despropositadamente. Inclusive, ampliei isso para outras áreas. Como isso chega aos jogos? Entrar no gamedev me ressucitou a paixåo por explorar, aprender e compartilhar. E me fez rever minha relação com livros e filmes. Tudo porque me deu um objetivo a mais, que estava adormecido, latente, e acorda faminto por novidades.
Ainda tenho olhar crítico, desfragmentador e analítico para quase tudo, porém considero isso parte da minha identidade. Meu propósito maior talvez seja esse. E por causa disso, pasmem, consigo "jogar o que gosto", e voltei a "ler o que eu quero", porque dei um novo significado para essas ações.
O texto de Braga fala sobre as obrigações do cotidiano engolindo nossa autonomia para ser feliz, nossos momentos desfocados. Eu aprendi a dosar porque encontrei o contrapeso no gamedev, é a minha identidade de relação com os elementos do mundo.
Dentro da comunidade, eu me sentia um zero à esquerda por não ter a vivência com clássicos como os colegas têm. Agora eu pego um clássico com o propósito de estudar ele e consigo reverter muitas questões internas, especialmente de gostos, para ter uma opinião.
Talvez pareça que eu contradigo Braga, mas não. As demandas do mundo nos engolem porque não as escolhemos e então a possibilidade de escolher desaparece e isso nos leva à infelicidade e à lenta morte de apenas sobreviver. Eu me dei o direito de escolher e isso me tornou livre.
Braga também nos fala sobre o oceano de estímulos informativos que temos, e que se não tivermos um direcionamento a gente morre agorado em dados. Milhares e milhares de opções, qual escolher e por quê? A nossa vontade pessoal deveria ser a única razão aceita.
Hoje eu crio jogos para deixar flutuando ns Itch, escrevo nos fóruns pra que alguém leia um dia, criei um site (já desativado) para que alguma pessoa desavisada respire um ar diferente com os olhos. Tenho vontade de criar algo comercial? Sim! Mas enquanto isso eu me alimento de mundos (plural) para fortificar a parte de mim que vai viver para sempre: minha criatividade.

Joguem os jogos que vocês quiserem, tenham-se como público de suas obras, escolham-se sempre para, até quando forem escolhidos, possam ter feito essa decisão de alguma forma.


Ouça, Virgínia, é preciso amar o inútil. Criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher as rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim, sem esperar nada em troca. A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas.
Lygia Fagundes Telles, Ciranda de Pedra​
 
Sempre achei curiosa a relação utilitarista que algumas pessoas tem com a arte. E quando eu falo curiosa, leia isso com alguma ironia, pois em minha concepção a arte precisa ser inútil. Aliás muitas coisas na nossa vida deveriam ser menos útil.

A gente vive em um tempo onde a regra parece ser a produtividade a qualquer custo. Ao ponto de muita gente se sentir mal por "ser improdutivo" mesmo durante o descanso. Sabe aquela coisa de "Trabalhe enquanto eles dormem." ? Não sei quem foi que difundiu isso, mas com certeza fez muita gente achar que tudo o que se faz precisa servir a algum propósito.

E isso não é verdade.

E o que o texto do @misterdovah nos provoca é justamente refletir sobre a escolhas que podemos, ou deveríamos fazer. Ler um livro que que você quer, que te dê prazer e proporcione um tempo de escapismo da realidade. Ler não porque fulano ou beltrano disse pra ler, ou porque você vai aprender algo com essa leitura. Ler, pelo prazer de ler.

O mesmo vale pra jogos. Principalmente quando você se dedica a criar jogos, ou conteúdo sobre jogos. O que deveria vir antes de jogar ou criar deveria: vou criar/jogar porque eu quero. Porque eu gosto. Se você vai publicar seu jogo para outras pessoas, vai comercializá-lo e ficar multimilionário isso é outro papo. É preciso que durante o processo de criar ou jogar, isso seja prazeroso.

Eu sei que essa linha de pensamento não é o consenso dentro da logica capitalista e periférica na qual estamos inseridos. Mas é algo que todos deveriam ao mens tentar uma vez: fazer algo comprometido apenas consigo e com aquilo. Experimente assistir um filme com o celular desligado, ou sem a obrigação de ter que postar uma opinião sobre ele na sua rede social preferida. Assista porque você quer e somente por isso. Faça o mesmo com jogos ou livros. Visite um museu, ou vá na feirinha do seu bairro só pra caminhar e talvez comer um pastel com caldo de cana.
 
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